quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Novidade

sou
romântica
incurável
indefensável

sinto
saudades dos
seus olhos
de surpresa

tenho
medo de não
ser mais
novidade

gosto
porém - e ainda
quando chega
inalterável

terça-feira, 27 de junho de 2017

365 Dias #2: "Identidade"

Cada pessoa que passa na minha vida e cada fato ocorrido na minha trajetória deixou uma marca na minha personalidade.

Algo aconteceu, no entanto, que fez com que essas pessoas e esses fatos passassem a subtrair fragmentos da minha personalidade, e não mais acrescentar.

Hoje, sou um monte pedaços colados. Sou só remendos. Sou incompleta. E cada pessoa que chega, que choca contra mim com a sua bagagem, leva um pedaço da minha própria.

Alguns rapazes levaram muito do que eu era. Meu pai levou muito do que eu era. Atualmente, estou sem proteção nenhuma - pessoas incrivelmente aleatórias e de pouca importância levam embora muito do que eu sou. Todos os dias, alguém me faz ser menos, e eu não consigo fazer isso parar.

Não me reconheço em nada nem ninguém. Já não me basto mais.

Hoje, já esqueci quem sou.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

365 Dias #1: "Pedra Grande"

Do alto da pedra
Vi o mundo ao seu lado
Do alto da pedra
Vi o mundo em seus olhos

Fica mais um pouco
Aqui no alto, aqui comigo
A gente pula de asa-delta
De cabeça nesse mundo

(me deixa
pular
de cabeça
em você)



domingo, 25 de junho de 2017

365 Dias #0

Vou tentar escrever durante um ano inteiro. Pode ser uma poesia, um conto, qualquer texto corrido sem muito sentido: vou escrever todos os dias. Farei isso por mim e pela minha saúde mental.

Começarei essa jornada de autoconhecimento amanhã. Espero que dê certo.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Notas sobre o Ano Novo, parte um

Este é mais um texto cheio de clichês, daqueles que escrevemos inspirados pelo clima de final de ano.

***

Não sei ao certo o que dizer sobre este ano que se passou. Ele foi, basicamente, dominado pela sensação de deslocamento. Sim, boas coisas - ótimas, na verdade - aconteceram, mas é como se eu não estivesse ali presente, vivendo tais coisas; foi como ser uma ouvinte, uma espectadora de algo que não foi meu.

Conquistei coisas difíceis, que geralmente as pessoas não conquistam de primeira. Mudei de emprego. Conheci um bom rapaz, que hoje é meu namorado. Me formei. Mas eu me perdi no meio desse trajeto...

(Tenho amigos que podem descrever melhor o dia em que disseram para eu responder, depois de uma longa reflexão, a pergunta "quem sou eu?". Chorei igual uma filha da puta. Nesse exato momento, eu não sei se choraria se me perguntassem isso, mas diria "Putz... Porra, que pergunta, né?")

Lembro-me que, nas festas do ano passado, eu estava feliz, otimista sobre o futuro, com aquele sentimento de gratidão que faz você querer presentear as pessoas mesmo sem ter dinheiro. Feliz com o meu gorrinho de Papai Noel, feliz com o bingo em família, feliz em contar para os parentes - alguns bem intrometidos - sobre os planos para 2016. Neste ano, todavia, estou aqui, algumas horas antes da festa de Natal, escrevendo este texto sem saber muito bem o que quero dizer, incomodada com o calor, sem grandes expectativas para o futuro, pensando se meu namorado está se divertindo sem mim depois de eu ter sido um pé no saco com ele nos últimos 3 ou 4 meses, e pensando em estratégias para hoje à noite para evitar as primas que irão se convidar para a minha formatura. E talvez eu esteja com gases também.

(Apesar de tudo, estou ansiosa para comer o pavê da minha vó e as barquinhas de salpicão de frango da minha tia.)

Em suma, não era para esta sensação de deslocamento estar aqui agora. Hoje. Antes do Natal, que sempre me alegrou todo ano.

Sempre gostei dessas festas de final de ano pela sensação que passam:
Renovação.
Esperança.
Novidade.
Encerramento de um ciclo.
Fé no futuro.

Mas o que dizer quando você não conseguiu viver esse ciclo muito bem? Renovação do quê? Qual a novidade? O que é ter fé?

O sentimento de torpor, para mim, é um dos piores que existem. Porque quando você está feliz e otimista, isso te motiva. E quando você está com raiva ou triste, isso te motiva a ultrapassar certas barreiras, ou simplesmente a entender e refletir melhor sobre o que está a sua volta. Agora, quando você está inerte, sem sentir nada, você não sabe muito bem qual deve ser sua reação - tampouco como ter uma.

Agora, escrevendo tais palavras, consigo ver o que me faltou neste ano: reação. Reações minhas, reações de todos, reações produtivas. Fatos ou atos provocando reações que fazem as coisas seguir em frente. Reações que transformassem o deslocamento em alguma coisa que eu ainda não sei muito bem o que é - afinal, cheguei a essa brilhante conclusão, mas ainda me sentindo deslocada. Calma, vamos por partes, né?

***

Eu não sei se esse foi mesmo um texto cheio de clichês, daqueles que escrevemos inspirados pelo clima de final de ano. Acho que eu gostaria que fosse. Mas, claro, ainda falta uma semana para o ano acabar - a reflexão mal começou.

sábado, 2 de abril de 2016

Raízes

Sempre tentei apagar meu passado. Ou, ao menos, amenizar seus efeitos de alguma forma. Fotos e cartas rasgadas, registros virtuais apagados. Momentos traumáticos que a própria mente transformou em borrões - os quais eu não tento resgatar por achar que certas coisas sequer precisam ser relembradas.

Mas eis que chega mais um dia e eu me pergunto: se eu apago grande parte do que eu vivi até agora, o que sobra? Quem sou eu hoje?

Ao mesmo tempo, como o anjo e o demônio que discutem sobre nossos ombros, me questiono: eu preciso ser o que meu passado supostamente determina?

Noutro dia, numa dessas charges que circulam por aí, li uma mensagem interessante. Era algo sobre como não precisamos cultivar os problemas que se arrastam por gerações em nossa família. Tais dizeres me chamaram a atenção, ainda mais porque vinham acompanhados de uma ilustração na qual uma pessoa cortava as raízes que a ligava com seus familiares. Foram essas raízes que me fizeram refletir. Onde estão minhas raízes? Se eu cortá-las, posso restabelecê-las em solo diverso? Posso trocar o vaso que as abriga? Onde está o limite entre um corte de raízes que me desvincilha de uma carga negativa e outro que me deixa sem história, sem bagagem?

Não estou dizendo que estou pronta para aceitar toda minha história com um sorriso no rosto. Mas agora, pelo menos, consigo aceitar a existência deste passado; consigo aceitar que situações delicadas pelas quais passei me construíram, através de um longo processo, como sujeito. E consigo entender que este processo é contínuo - e não é tão simples como eu gostaria. Aceitar que eu tenho uma história e começar a entender o caminho que minhas raízes traçam é, de certa forma, gratificante: eu não sou, afinal, apenas uma folha caída.

terça-feira, 7 de julho de 2015

Cosmos (ou Crônica Sobre Tudo Que Não É)

Algumas coisas não são para nós.

E o que você vai fazer a respeito disso? Vai ofender as estrelas, os planetas, o Universo? Porque o Universo vai continuar lidando com as coisas do jeito que sempre lidou.

E, caralho, como o Universo sabe o que faz.

Algumas coisas não são para nós.

A pessoa perfeita que cruzou seu caminho, mas ainda sofre por um grande amor, aquele que fez todo o sentido naquele determinado momento de sua vida; o amor de verdade, não aquela foda casual que você está procurando agora. Mas o Universo entendeu que era hora dos caminhos se descruzarem; era hora dessa pessoa tão amada seguir em outro plano. E você nunca vai substituir esse amor na vida dessa pessoa perfeita que cruzou seu caminho da maneira mais aleatória possível. Talvez você apenas adicione um pouco de amor novo na vida dela; talvez não você, mas outro alguém faça isso.

Que caralhos eu sei sobre o futuro? O Universo está dando um jeito de fazer com que outras pessoas fantásticas cruzem o seu caminho. E o dela. E o de todo mundo.

Algumas coisas não são para nós.

Talvez não sejam agora, talvez não sejam nunca. Talvez essa pessoa só cruzou seu caminho para que você pudesse pensar: "que alívio saber que o amor, no seu sentido mais puro, existe. Que muitos amores o encontrem, mas que nenhum tente substituir aquilo que foi perfeito naquele momento, porque a vida é sobre isso: momentos".

Algumas coisas não são para nós.

As pessoas cretinas que passam pela sua vida; as pessoas de merda que te machucam; as pessoas que pensam que você é um maldito fantoche; as pessoas que não se importam com as outras, sejam elas conhecidas ou desconhecidas; essas pessoas também não são para nós. E, de algum modo, o Universo sabe o que está fazendo; nada está flutuando por aí, desconexo, sem propósito.

As pessoas que sofrem, as pessoas que lutam, as pessoas que choram. Elas estão incluídas nas engrenagens invisíveis do Universo - mesmo que elas não queiram saber desse papinho.

Algumas coisas não são para nós.

O ódio não é para nós, assim como o amor também não é. Mas quando um deles cruza nosso caminho, é sempre mais fácil aceitá-lo quando necessário e deixá-lo ir embora na hora certa. Porque nenhum deles é nosso para sempre.

Algumas coisas não são para nós.

Nem mesmo o conhecimento.

E, afinal, que caralhos eu sei sobre algo?