domingo, 30 de março de 2014

Domingo chuvoso

                - Quem está aí?
                Não era ninguém. A chuva e o vento provavelmente derrubaram alguma coisa no quintal.
                “Melhor assim”, pensou. Teria tempo para pensar, gostava de fazer isso em domingos chuvosos.
                Pegou sua xícara de chá, apagou a luz da cozinha e se dirigiu lentamente ao seu quarto. Era um domingo realmente preguiçoso. Sentou-se entre cobertas e travesseiros, fechou mais alguns botões do seu casaquinho velho e pôs-se a observar a chuva pela janela.
                Trazia-lhe uma paz tão grande, esta chuva. Pensou nas pessoas desabrigadas, nos cães abandonados e sentiu um aperto no coração. Mas logo a chuva já havia levado esse aperto embora e lá estava ela, distraída novamente.
                “Queria eu me renovar com essa chuva, parece tão simples. Sempre parece que uma nova fase se inicia quando a chuva acaba. Que gostoso...”
                Sabia diferenciar as gotas que caíam no telhado das que batiam na janela. Sentiu-se leve...
                Terminou de beber seu chá, mas a xícara permanecia quente. Envolveu-a com as mãos e ficou sentada ali por mais alguns instantes.
                Até que percebeu que a chuva estava parando, que o barulho diminuíra e só se escutava a água escoando pelo ralo do quintal.
                Seu telefone tocou.
                - Vamos dar uma volta, amanhã já começa tudo de novo.
                E foi, mas com a sensação de que não pensara em tudo que queria...

Atraso

Plantam-me rosas
Escrevem-me poemas
Entregam-me céus
Cantam-me canções

Rega-me morta
Escreve-me rasgada
Traz-me relâmpagos
Afina-me surda

sábado, 29 de março de 2014

Cartas egocêntricas

Cansada de
Muitas idas
E poucas vindas

Escreverei cartas
Endereçadas ao meu
Ego

Talvez eu flerte
Comigo mesma
"Leia meus poemas"

Expectativas
Muito bem
Correspondidas

sexta-feira, 28 de março de 2014

O segredo dos seus olhos

"Olhe para mim", digo frequentemente. O que se passa lá fora?
Me irrita de uma maneira tão charmosa...

Tudo bem, eu sei que seus olhares são especiais.
Parecem guardar um segredo que só se revelam na hora certa.
Encontram minha alma no momento que ninguém conhece, que só interessa a nós...

Tenho tanto a buscar nos seus olhares, raros como jóias.
É como conhecer você todos os dias...

Dê-me esse prazer de desvendar seu coração tão protegido por fortes muralhas, essa mente tão cheia de palavras difíceis.
Dê-me essa passagem através destes olhos lindos que há tanto tempo conheço...

quinta-feira, 27 de março de 2014

Respostas

Respostas?
Tenho tão pouco a dizer, sabe disso
Sabe que sou uma ouvinte

Mas também tenho aguardado tanto por respostas
Que não seria de todo mal
Oferecer algumas a quem quisesse ouvir...

segunda-feira, 24 de março de 2014

Um estranho, por favor

Essa ansiedade desvairada me faz pensar em que momento eu deixei de ter fé e determinação. Que agonia, ainda mais por saber que já fui mais corajosa.
Muito aperto no peito para alguém tão jovem. E se eu não conseguir?

Que vontade de trombar com algum desconhecido que me diga:
- Calma, moça, vai dar tudo certo!
Ou qualquer outra coisa. Completos estranhos sempre me dizem boas coisas.

Estou tentando me lembrar de alguns deles. Não me recordo exatamente... Mas sei que cada um foi adequado naquelas determinadas situações. Eles sempre dizem as palavras certas, sempre.

Coitado de quem me parar na rua hoje para perguntar que horas são. Vai ter que me explicar tudo, inclusive que horas são. Por acaso parece que eu sei a hora de alguma coisa?

Deus do céu, traga-me um estranho com bons conselhos antes que eu me afogue nessa ansiedade.

domingo, 23 de março de 2014

Válvula de escape

Penso no dia em que usarei
Minha válvula de escape
Às vezes penso que será logo
Não me parece que irá tardar

Há segredos que hei de não revelar
Não me interessa
Ninguém parece se interessar...
Cuidarei bem deles sozinha

Minha saída é bela, sutil
Tão secreta e discreta que me diverte
E diverte a quem se dispõe a descobri-la
Mas preservo seu mistério cuidadosamente

Uma vez utilizado tal escape
Não há volta, e digo mais
Neste dia, reconhecerei-me tão bem
Que aquilo do qual fugira perderá seu sentido

Delicio-me imaginando
As expressões
Do mais puro
Arrependimento

Domingo chuvoso


sexta-feira, 21 de março de 2014

Haikai 3

A chuva cansada
como se nada soubesse
entrega-se ao solo

quinta-feira, 20 de março de 2014

Pequeno outono

Mais algumas palavras rotineiras sobre a rotina

Rotina
Contínua
Repete

Repete
Repete
Espera

Mentira
Rotina
De novo

Escapa
Janela
Ilumina

Lá fora
Rotina
Da vida

Retorna
Esquece
Repete

Rotina
Rotina
Rotina

quarta-feira, 19 de março de 2014

Vida invertida

Cansaço de ser jovem. Como pesa o futuro...
Não deveria estar sentindo esse peso.
Sinto-me velha, vivida.

Não sei se é excesso de sonhos ou a falta deles,
mas algo me assusta...

Algo me sufoca e me faz querer... uma pausa.
Não, não é falta de vontade.
Apenas não consigo abraçar esse ideal de viver freneticamente,
sem pausas,
sem reflexões.

Mas há outro "algo".
Algo que me faz querer parar de reclamar. Se é que isso tudo são reclamações.
Não sei dizer.
Sinto-me mal por isso.

Será que é o ideal de juventude perturbando meu sossego?
Mas me parece algo tão forçado pela sociedade...

E quando envelhecer? Arrependerei-me da minha pacata juventude, talvez. Mas...

Penso se serei uma senhora animada, com vontade de aproveitar a vida. Acredito que sim. Sinto uma inversão em mim.

Eu sei, eu sei:
"Não se conhece o amanhã, aproveite sua vida hoje".

Aproveitar é muito relativo.
Essas dúvidas já pesam o suficiente, já me deixam cansada.
Não me traga mais delas.
Estou aproveitando para resolvê-las enquanto acho conveniente.

No final das contas, essa reflexão sobre o cansaço me distrai do próprio cansaço, de alguma forma.

Haikai 2

A gota de orvalho
ansiosa por mudanças
alcança outra folha

Julgamentos

Tenho me importado
Demasiadamente
Com julgamentos

Exageradamente
Desgasto
Meu gosto pelo simples

Temperamentos simplesmente alterados

Socorro
Encarecidamente
Já desgastado

Haikai 1

Num dia chuvoso
ensinou-me a escrever
partiu sem adeus

Excessos e metades

Vejo suas palavras rebuscadas, seu conhecimento. Pensa que me assusto?
Excessos desgastantes, bagagem desnecessária.
Disfarce para a falta de essência. Você não se conhece quando está despido.

Diga-me: o que veio fazer aqui?

Conhece meus transtornos desde o primeiro momento. "Eu já estou cansado há tempos", ouvi você dizer.
O que traz você até aqui, então?
Não me dê meias atenções. Quero vidas inteiras.

A minha vida inteira.
Não tire isso de mim.

Minhas palavras: poucas, simples, clichês. Que audácia da minha parte, achar que estou dizendo algo importante.

Ao mesmo tempo que seus sonetos nada me dizem... Contraditório.
Para quê precisa de mim? Não me respondeu. Seu excesso de palavras não me trouxe resposta.

Pensa que me conhece por inteiro.
Ah, meu caro... Suas meias atenções não transformam as vontades daqueles rapazes em meias vontades...

Conceito vencido

Amor cético
Quente
Vencido

Amor poético
Carente
Agradecido

Amor? Menos...
Que conceito criado
Que fator desgastado
Ilusão, pecado, piada
Quem sabe?

Você não sabe
Eu sei?
Não me importa saber
Inventem outro nome
Me distraiam com outro conceito
Abstrato
Façamos um trato

Me tragam menos dor de cabeça
Dor cética
Poética
Trato feito

Covardias e divindades

Querer um ponto final para a vida é covardia. Olhe para eles. Qual é o conceito de desespero?

Questionar Deus é uma baita covardia. Mas como não questioná- lo?

Implore por menos covardia. Implore para o céu, para as paredes. Grite com aquele pássaro, olhe como é patética sua calma.
Grite com Deus. Dá tudo no mesmo, Ele não abandona seus filhos.

Ah, o abandono... Implore por sanidade, implore por coragem para não se abandonar.

Quem se importa? Você já é covarde.

Sobre escrever

Disseram-me que era fácil
Um jogo de palavras e algumas ideias bagunçadas
Isso era o suficiente para a boa escrita

Escrito isso
Joguei as bagunças
Palavras ideais

Era mentira
Disseram-me metade
Omitiram a cabeça bagunçada

Por ideias jogadas
Por palavras mal escritas
Por escritas mal ditas