quarta-feira, 9 de julho de 2014

Passado sem título

Sentada onde um dia chorei
Dizendo que jamais se repetiria
Cá estamos novamente - as pedras e eu
Tentando entender o passado

Passado: tão breve em meus vinte anos
Tão recente quanto as flores que hoje vejo
Tão duro quanto a pedra que me encara
Rígido, cíclico e sem rimas

Hei de deixar para meus filhos
Estas mesmas pedras nas quais sentei
Estes poemas exaustos e secos
E este mesmo passado - calado e desgastado

Sensação cinza

Barulhos da cidade e formas excêntricas
me embalam num dia cinza
e traduzem o cinza em mim.

Vento que embala o tudo, o nada,
as crianças e o meu próprio ser
mas que não desembrulha a sensação.

A sensação perdura, às vezes insiste
em ocupar um espaço
que já pertenceu às mais vívidas cores.

Mas hoje a sensação é cinza,
embrulhada e amassada,
traduzida pelo vento só.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Confissão sem rima

Perdi o gosto pelas rimas.

Preciso de um bom texto corrido para confessar que estou perdida sem você, meu amor - permita-me que eu chame você assim apenas pelos hábitos, pois também estou perdida sem eles.

Penso tanto em tudo que perdi. E saber que não terei isso novamente me atordoa todas as noites. Mas você sabe: tudo isso, eu escolhi mas não escolhi.

A falta de gosto pela vida tem me deixado cada dia mais frágil, e eu já não precisava explicar a você as minhas fragilidades. Éramos frágeis juntos, o que tornava as coisas mais fáceis de alguma maneira.

Você era complicado, meu menino. Não tive coragem de dizer que eu nunca gostei do que você me pedia. Fazia por amor, por gostar de te fazer feliz. Você merecia tudo, sabe? Mas, de alguma forma (eu sei qual forma), você me lembrava alguém que um dia me magoou. Você não deve ter esquecido: eu nunca mais confiei em ninguém depois de uma fase da minha vida. Talvez seja por isso que eu sempre tive medo de te dizer "não".

Mas o que me corrói de verdade é saber que eu estava infeliz com você. Me dei conta de que eu estava com você por outras razões, as quais já não levavam mais ao amor. Por que continuo infeliz? Porque sei que vai ser impossível amar novamente com a intensidade que te amei. E sinto que vou enlouquecer. Eu sinto falta do companheiro que você foi um dia. Você mudou. Você me mostrou alguém feliz inicialmente, e com o passar do tempo, essa máscara de felicidade deu lugar a... Quem você sempre foi.

Mas eu acostumei tanto a chorar nos seus braços que eu precisava desabafar com você, mesmo que você não leia isso nunca - eu sempre reclamei por você não ler meus textos e poemas.

Espero que você esteja bem, e me amando cada dia menos. O tempo vai tirar essas memórias de nós.

Quanto a mim... Minhas dores continuam. Todas elas. Mas o tempo também resolverá isso.

Cuide-se, meu amor.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Incolor

Vida: instante
insosso e
paradoxal

Esperar pelo pagamento
ou pelo sustento
que não virá

Viajar de bagagem vazia
que então havia
de chegar lá

Deitar e lembrar que isso
é um compromisso -
Deus compensará

(Rimas de
uma vida
insípida)

Segue sua vida
repleta de muito
que nada diz

Limbo

Tristeza é poesia
Um trem que passa

Liga um nada a outro
Mas a viagem encanta

Palavras faltam
Mas há poesia

Falta alegria
Na viagem da vida

A arte está no trem
Que vaga cansado

Pelo limbo da vida
Lendo tristes poesias