domingo, 1 de fevereiro de 2015

Próxima parada

Uma simpática moça, bem vestida, numa boa fase dos seus 30 anos, desceu do ônibus quase que no meio de sua pergunta, que aparentemente era direcionada a mim - se não fosse para mim, então seria para as pombas que comiam o resto da pipoca que eu comprara minutos antes. Mas elas pareciam entretidas com a pipoca.

- Com licença. Você conhece bem a região? Hum, não, né? Eu...

- Ah, conheço, sim, moça. Faz uns 20 minutos que eu estou sentada aqui nesse ponto. Pelo que já pude observar, ninguém olha para o lado, a menos que seja para ver se seu ônibus está chegando; veja, estou há 20 minutos aqui, alimentando pombas, e ninguém reparou que alguém fez um desenho nessa calçada, bem debaixo dos nossos pés. Viu? Pois é, bem criativo. Aquele cara ali na ponta esqueceu que está esperando um ônibus, pois está encarando freneticamente seu celular e digitando desde o momento em que sentou; acho que ele já perdeu uns três que poderiam levá-lo ao seu destino. Nessa região, as pessoas também têm pressa para chegar, não importa aonde. Eu ouvi um cara falando isso quando eu estava vindo para cá: "todo mundo faz tudo correndo, sabe? Eu também fazia isso, só corria. Eu ia com o fluxo". Ele fez uma boa observação, aquele rapaz. Nunca vi tanta gente correndo, com pressa, como se estivessem fugindo; mesmo paradas, elas fogem do que está ao seu redor, fogem de um olhar que sorri, de uma imagem no muro, de uma flor que nasce. Eu conheço bem essa região, moça, conheço mesmo. Se for por ali, você vai dar de cara com um monte de gente emburrada, todas dentro de seus carros grandes e caros, esperando o sinal abrir para que elas possam pegar mais trânsito logo à frente. Agora, se você quiser descer por aqui, vai encontrar muitas pessoas sorridentes dentro de lojas; essas também fogem de algo que não sei explicar, por isso compram tanto e sorriem desse jeito esquisito, meio frenético, sabe? Aliás, aposto que você vai encontrar uma loja que vende um desses celulares iguais aos do cara ali da ponta. Mas como se chama mesmo o lugar para onde você vai, moça?

- Eu... Uau, não me lembro o nome, mas é o hospital conhecido que fica por aqui.

- Ah, claro. Apenas continue descendo, é a segunda rua à esquerda. Se sente mal?

- Perdão? Ah, não, não é isso, estou indo visitar uma amiga... Colega, na verdade. É do trabalho, uma triste história, tentou se matar.

- Não tão triste, no final das contas.

- Bom, é o copo meio cheio, não é? Até mais!

Acompanhei-a com os olhos enquanto ela descia a rua. Encarei as pombas por alguns instantes - elas não pareciam ter pressa. Olhei novamente para a moça. Estava prestes a virar na rua indicada, quando... Por que estava voltando?

Parou em frente a uma bonita árvore carregada de flores amarelas, as quais não consegui identificar de longe, estendeu a mão e, na ponta dos pés, conseguiu arrancar uma flor.

Será que entregaria a flor para a sua colega? Será que elas virariam amigas próximas? O que teria levado a colega a tentar pôr fim em sua vida?

Perguntas que ficaram no ar e que não precisavam ser respondidas. Meu papel era, simplesmente, imaginar como terminaria aquela história. Bem, não salvei a vida de ninguém, mas fiz alguém olhar para os lados; é uma missão e tanto.

Guardei meu bloquinho e minha caneta, levantei e subi lentamente a rua, olhando para um céu que parecia anunciar a chegada da chuva. Poderia ter voltado de ônibus, mas... Eu não estava esperando nenhum ônibus mesmo.

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