segunda-feira, 29 de junho de 2015

A grande coruja

Não sei pensar a longo prazo.

Por causa disso, não consigo dizer se "o" cara é o atual, o que veio antes dele ou o futuro. Gosto de aproveitar intensamente os momentos ao lado deles, não importa quanto tempo dure. Coleciono experiências, não números.

Acho que todos são "os" caras.

O cara da coruja é um deles.

***

Era um bairro que eu não conhecia, um prédio que eu não conhecia e um cara que eu tinha acabado de conhecer. Havia uma coruja, de cores escuras mas marcantes, nos observando.

Um quarto branco, apenas com o necessário. E a coruja estava lá, mas.... "O que ela está fazendo aqui?", eu pensava.

Fizemos amor como se apenas aquilo fosse o necessário. "Fizemos amor", sim, como se já nos conhecêssemos - e constatei que há tempos eu não era tratada como se apenas eu fosse necessária ali.

Desviava o olhar de vez em quando e via aquela coruja. Meu Deus, mas será que ninguém reparou nela ali?

Trocamos carícias; conversamos; fizemos amor mais algumas vezes; adormecemos. Eu acordava durante a noite, constatava que seria muito difícil seguir a vida sem poder afagar aqueles cachinhos de novo, recebia um beijo sonolento na nuca e voltava a dormir. Estávamos passando por situações semelhantes em nossas vidas. "Ele é um cara legal, espero que se dê bem. Quem sabe, um dia, ele volta?".

O quarto branco tinha uma janela grande e uma cortina que não impedia a passagem de luz. Despertei um pouco antes das sete da manhã; ele me olhava e disse que também não conseguia mais dormir. Retomamos o abraço e tentamos dormir mais um pouco, até que eu perguntei: "ei, onde está a coruja?".

"Está ali, no mesmo lugar", e apontou para a grande coruja de porcelana que ficava em cima de seu guarda-roupa. "Ou você achou que ela ia sair dali?".

Dei-lhe um beijo delicado no pescoço e acariciei seus cachinhos até que voltasse a dormir. Encarei a coruja. Ela saiu silenciosa pela grande janela. "Você só pode estar brincando, sua coruja maluca".

Acho que, naquele momento, ela foi contar às outras corujas imaginárias como nada daquilo que ela presenciou parecia ser real.

***

Outros caras virão. Serão todos "os" caras. E talvez o próximo tenha uma capivara.

(Mas eu não me importaria de ver o quão real aquela coruja era... Espero ver aqueles cachinhos novamente.)