sábado, 2 de abril de 2016

Raízes

Sempre tentei apagar meu passado. Ou, ao menos, amenizar seus efeitos de alguma forma. Fotos e cartas rasgadas, registros virtuais apagados. Momentos traumáticos que a própria mente transformou em borrões - os quais eu não tento resgatar por achar que certas coisas sequer precisam ser relembradas.

Mas eis que chega mais um dia e eu me pergunto: se eu apago grande parte do que eu vivi até agora, o que sobra? Quem sou eu hoje?

Ao mesmo tempo, como o anjo e o demônio que discutem sobre nossos ombros, me questiono: eu preciso ser o que meu passado supostamente determina?

Noutro dia, numa dessas charges que circulam por aí, li uma mensagem interessante. Era algo sobre como não precisamos cultivar os problemas que se arrastam por gerações em nossa família. Tais dizeres me chamaram a atenção, ainda mais porque vinham acompanhados de uma ilustração na qual uma pessoa cortava as raízes que a ligava com seus familiares. Foram essas raízes que me fizeram refletir. Onde estão minhas raízes? Se eu cortá-las, posso restabelecê-las em solo diverso? Posso trocar o vaso que as abriga? Onde está o limite entre um corte de raízes que me desvincilha de uma carga negativa e outro que me deixa sem história, sem bagagem?

Não estou dizendo que estou pronta para aceitar toda minha história com um sorriso no rosto. Mas agora, pelo menos, consigo aceitar a existência deste passado; consigo aceitar que situações delicadas pelas quais passei me construíram, através de um longo processo, como sujeito. E consigo entender que este processo é contínuo - e não é tão simples como eu gostaria. Aceitar que eu tenho uma história e começar a entender o caminho que minhas raízes traçam é, de certa forma, gratificante: eu não sou, afinal, apenas uma folha caída.

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